Heróis e náufragos

Ricardo Leite

É impossível não associar o excesso de imagens e de notícias do Costa Concordia com o massacre publicitário que antecedeu o lançamento do filme Titanic. É tanta a analogia que, se fecho os olhos para fugir do que já cansei de ver, ouço a Céline Dion cantando “My heart will go on”.
E para quem aprecia cruzeiros, duas sensações devem estar na pauta da hora, do dia e da semana: uma de alívio - “ainda bem que na minha viagem tudo correu direitinho” - e outra de indagação - “será que vou ter coragem de encarar um cruzeiro outra vez?” Por outro lado, há os que, como eu, não se amedrontam com notícias de naufrágios. Nesse campo, ou nessa água, minha experiência é nada e se resume a uma passagem pelo do Canal da Mancha, quando ainda não estava na moda o claustrofóbico Euro-Túnel. Fora disso, e sempre com um colete salva-vidas à mão, só os ferryboats da Ilha Bela, ou as barcas da Rio-Niterói.
A submersão de boa parte do Concordia mostrou fatos que podemos colocar no campo adverbial do felizmente ou do infelizmente. No modo felizmente, o melhor foi o baixo número de mortos, uma vez que a bordo havia mais de 4 mil. E que eu saiba, nem um salvador da pátria com a coragem do DiCaprio. Outra sorte é que o desastre ocorreu longe das águas glaciais do Atlântico Norte. No Mar Tirreno, a poucas braçadas da Ilha Giglio, tudo ficou menos caótico.
No terreno do infelizmente, há que se lamentar, sobretudo, a canalhice do comandante. Ao contrário do esperado de quem é o principal responsável por milhares de vidas, ele logo tratou de salvar a própria, ignorando que velhinhos e criancinhas ainda estavam a bordo. Simplesmente praticou o ditado preferido no Brasil das covardias políticas, quando ocorrem chuvas de verão, como se viu recentemente com verbas de um ministério: entre muitas sardinhas, as brasas vão para as minhas.
Nem a indignação do chefe da Capitania, dita com um palavrão que a imprensa evita traduzir, de tão chulo - frase que, por sinal, virou tema de camiseta -, serviu para pôr as coisas no devido lugar, isto é, para fazer o fujão retornar ao posto abandonado. E por conta do passa-fora bem dado, o chefe acabou elevado à condição de herói supranacional.
Então faço aqui três perguntinhas pouco lembradas pela mídia: 1) É heroísmo um profissional agir prontamente, seguindo leis e normas que regem a sua profissão?
2) E se o tal chefe declara que assumiu o comando, na omissão do desertor, não seria também de sua obrigação dar um pulinho até o navio e tentar fazer o que o fujão não fez? 3) Quantas vidas ele salvou, com os pés bem postos em terra firme, dando espinafrada por telefone no comandante relapso?
Ainda bem que o próprio De Falco até agora não embarcou nesse frenesi maluco, mas há algo de preocupante quando alguém, por cumprir suas obrigações - e só por isso - sai da condição de simples mortal para ser celebrado como uma exceção da regra ou até como um herói. Aqui no Brasil, onde desastres maiores se repetem na abundância das chuvas ou diante dos insolúveis problemas das metrópoles, temos de vez em quando situações parecidas. Quem já se esqueceu dos policiais que prenderam o Nem da Rocinha, recusaram uma oferta de suborno pela liberdade do traficante e apareceram no dia seguinte em vários programas de tevê, incensados como heróis da corporação, muito menos pela prisão e muito mais pela recusa do dinheiro sujo?
Pois se são essas as regras do jogo, o meu herói é o Juca, um aposentado que vende picolé diante do prédio onde moro. Faça sol ou faça chuva, ele empurra a pé o seu carrinho por quatorze quilômetros diariamente, arrisca a vida entre carros, paga licença para a prefeitura e trabalha para ajudar uma filha e dois netos abandonados pelo pai. O Juca é assim: se o comandante deixa os comandados ao léu, ele assume o posto, assume mesmo, para o que der e vier. E nunca vi o Juca pegar dinheiro de alguém. Só o do justo preço cobrado pelo picolé.

Ricardo Leite, Rio de Janeiro - e.mail: ric.jl@hotmail.com

 

Web Designer - Click !

Visitas

Free Counter