Durval Bortoleto Filho - Durvalzinho - 05 de Julho de 2003 - 6 ANOS

“Nada nos deixa tão solitários quanto nossos segredos”
- Paul Tournier
A tarde morria lentamente...os funcionários terminaram de fechar com reboque a laje que haviam aberto, e o vento soprando como que querendo varrer a tristeza e a dor daquela vida truncada tão cedo, chorando as oportunidades perdidas.., 6 anos... e até hoje, uma ferida que sangra e dói...como dói. Manhã do dia 5 de julho: a notícia. Uma tremedeira intensa toma conta de meu corpo, não conseguia verter uma única lágrima, pânico. Não, não, não. Mataram o meu Durvalzinho... era só o que conseguia dizer e pensar... difícil acreditar. Depois, muita gente, gente e mais gente. Era realmente o fim. Nessas horas você não consegue acreditar, não pensa em nada, tudo se torna um vazio geral. Revolta e desespero tomam conta de seus pensamentos...não acreditava no que estava acontecendo. A volta para casa: os parentes que não conseguiram chegar a tempo...os vizinhos e amigos nos dando assistência e carinho...um vazio estranho tomando conta de nossas vidas e um buraco negro me engolindo...pouco, a pouco...raiva, dor, mágoa, terror, merecimento? Dias e dias encolhida...olhando sempre para o nada...e nos próximos 5 de julho? quem seria o próximo? Medo, medo, medo... o tempo passa rápido...agora ele faria 30 anos de idade...
Não, nunca irei esquecer. Preciso me lembrar... do formato de seu rosto, da cor de seus olhos e cabelos, do seu sorriso. Sim. Naquele 5 de julho de 2003 foi a última vez que acariciei o seu rosto por muito tempo. Dei-lhe muitos beijos..., passei a mão por seu corpo todo... conversei com ele, e ele lá...imóvel. A sensação era de trazê-lo de volta para meu útero... seu rosto transmitia paz e as vezes me pareceu notar um leve sorriso...um sorriso de adeus a todos que lá estiveram...foi difícil, doloroso...
Todo esse tempo pergunto a Deus o porquê dele ter deixado aqueles vândalos, assassinos terem feito aquilo com meu filho querido. Vândalos que se transformaram em fantasmas. Fantasmas vivos. Será que conseguirão guardar esse segredo para sempre? “A falsidade tem uma infinidade de combinações, mas a verdade só tem um modo de ser” - Jean Jacques Rousseau.
Quantas vezes quis sonhar e voltar a ver meu filho novamente e não me foi possível...mas mesmo assim continuei rezando. Rezando para ter ele comigo só mais um pouquinho... e não consegui nada. Rezando por ele, por mim, por minha família. E o buraco negro me trazendo dia a dia para mais fundo...passei por medos, depressão, fiquei fria, fiquei sem amor...sem perdão e indagando: se Deus realmente me ouvia, se Ele achava que tudo passava. Se a minha perda para Ele era natural. Será que a minha perda tinha sido culpa minha ou de seus amigos ? Seria o destino? existe destino? hora marcada? Ninguém até hoje respondeu a nenhuma dessas perguntas.
Porque não pude trocar de lugar com ele? e a minha fé, não valia nada? porque não fui ao Clube Jequitibá quando a minha percepção exigiu? Para que servem os pais senão para cuidar e proteger seus filhos? Centenas de vezes pensei nisso tudo. Me fechei. Prejudiquei minha filha Maria, meu marido Durval, enfim, minha família por respostas que nunca irei encontrar. Sei que já chorei todas as lágrimas de uma vida toda, mas elas continuam ainda caindo...caem quando ouço uma música que meu filho gostava, caem quando o dia está frio e escuro...caem quando a tristeza se torna imensa. Então, rezo. Mas o tempo está acabando com todas a minhas esperanças...Deus, porque não foi capaz de cuidar do Durvalzinho? quando ele pediu: Socorro, pelo amor de Deus alguém me ajude! ninguém estava lá; nem eu e nem você Senhor...somente os fantasmas...
Se já consigo perdoar? quero viver o presente, amar todas as pessoas da mesma maneira. Acreditar que tudo aconteceu porque tinha que acontecer. Não quero mais viver do passado e sempre querer que o futuro chegue logo. Não quero mais viver no fundo do buraco negro, como todas as psicologas e psiquiatras me diziam, preciso dar vazão as minhas emoções...chega de lágrimas...chega de dor. Sim, já estou conseguindo perdoar...aos poucos...
Perdoar vocês...e perdoar a Deus. Perdoar a Deus? quem sou eu para pensar dessa maneira? Sim. Perdoar a Deus porque Ele levou o Durvalzinho para longe do meu aconchego. Longe dos meus olhos e do meu amor. Senhor me perdoe por estar Lhe pedindo perdão. Mas Senhor, perdoar a eles? sei que não devo deixar a raiva e a perda impedir o meu perdão, mas ainda continuo errada porque eles causaram sofrimento...causaram uma dor tremenda...vou pensar: eu te perdoo, eu te perdoo, eu te perdoo... então meu Deus...e a traição? eu também perdoo?
Hoje, Senhor...sei que ele continua vivo. Que aquela era sua hora. A hora do retorno. Um retorno que teve como finalidade um amadurecimento, um crescimento, um aprender a viver melhor. Sei também Senhor que a morte é apenas uma viagem, que o nosso espírito é eterno e que continuamos vivos em outra dimensão. Tudo continua...(me pego ainda querendo sentir o seu cheiro...sua voz e suas gargalhadas... esperando você aqui. Em nossa casa. Mas, essa espera é inútil. Durvalzinho, você está feliz?) Te amo para sempre meu menino do rio!!! sonhei tantos sonhos para você...que saudade do meu bebê, aquele menininho que desde pequenininho já fazia sucesso!!! sucesso incomoda né meu filho querido..., me perdoe por te amar tanto...,
Solange Bortoleto
Mamãe Solange, Papai Durval, aqui está o seu filho mãe..
Abra os braços para me receber de retorno através destas folhas em branco que vão sendo preenchidas com o meu carinho e saudades. As saudades nos pertecem, a revolta não mãe. Estou vivo. O filho que conheceu o carinho e o aconchego de seus braços, o amparo e a presença do papai Durval não está abandonado a estrada com o corpo todo quebrado vítima da violência dos que talvez nem mesmo por um momento tenham imaginado o quanto de pesar e de tristeza iriam causar a uma mãe que aguardava pelo retorno do filho para que comemorassem a data de seu aniversário junto a seus familiares.
Não pensaram que ao tirar a vida do meu corpo, quase retiraram a vida da senhora e de minha irmã, quase desestabilizaram um pai de família digno e honesto.Será que hoje ao contemplarem os seus olhos carregados de tristeza, da tristeza que nem mesmo o tempo é capaz de apagar, não sentem remorsos?
O que eles não sabem mãe é que após tirarem a vida do meu corpo ninguém matou ninguém, porque a morte não existe. Transferiram-me para uma nova condição de vida, onde compareci de vítima e não de algoz. Perdoa por tocar nesses assuntos minha mãe, se o faço é porque a senhora tem se pertubado em busca de esclarecimentos diante do inconformismo que a visita. A senhora sabe que nunca desrespeitei a senhora, que sempre foi o meu anjo aqui na terra. Lembra minha mãe o quanto éramos confidentes? Recordo-me de teus conselhos relativos a ponderação na área estudantil e profissional. Sempre tive orgulho da senhora, se me aventurei na área do jornalismo expondo minhas idéias em política e social o fiz por orgulho.
Venho através desta pedir a senhora que não chore tanto por mim mãe. Vamos sepultar o passado. Ninguém nos separou e a senhora sabe disso porque me percebe. Como eu gostaria que neste momento a senhora buscasse reconhecimento e com uma caneta na mão colocasse no papel tudo o que desejo dizer a senhora. Falar do meu reconhecimento de filho da minha necessidade de vê-la fortalecida. Veja nossa Maria, passou por maus bocados, mas está aí forte. Concretizando seus sonhos velados de amor, minha irmã merece, Deus abençoe. Tenho esperanças de que ela possa lhe dar os netos que não pude.
Quanto as pessoas que iliminaram o meu corpo físico não os imagine felizes. Ninguém nesta vida pode prosperar e ser feliz em cima da infelicidade alheia. Oremos isto sim minha mãe pelo........,pelo ......, lembra dele né mãe? Pois bem, oremos por todos. Que Deus ouça suas preces de mãe amorosa e nos conceda a paz revigorando nossas forças acalentando-nos novas esperanças no porvir. Que esta carta mãe possa lhe trazer mais conformação. A justiça de Deus começa onde termina a justiça dos homens, nunca se esqueça disso. Estou bem minha mãe e melhor estarei quando a senhora estiver em paz, com a consciência tranquila de mãe que não concede espaço no seu coração para o ódio e a indignação.
Observa minha mãe, Nossa Senhora recolheu seu filho morto martirizado na cruz inocente.Se nosso Senhor Jesus Cristo não tivesse nos ensinado o amor, o perdão, sendo traído, e assassinado não seria o exemplo para tantos injustiçados na terra. Recorda mãezinha Ele ressussitou tanto quanto o seu filho que do outro lado a aguarda com todo o amor do mundo.
Esquece a perda mãe, este é o canto do nosso crescimento e da paz que precisamos para reaprender a sorrir. Nesta data que se aproxima , data de seu aniversário, tenho uma sugestão a senhora que lhe fará bem. Divulgue a nossa IMORTALIDADE através do Jornal. as tarefas e os trabalhos da casa, onde outras pessoas poderão tanto quanto a senhora encontrarem o conforto e o amparo através de mensagens consoladoras.
Quero beijar o coração do meu pai agradecido por tudo. Parabenizar minha irmã Maria. O vovô Daniel manda abraços a todos e pede ao poeta Augusto de Lemos, presente a reunião que dedicasse umas palavras bonitas que seguem abaixo.
Beijos, minha mãe do filho que te adora sempre,
o seu Durvalzinho.
Mãe, erga teus olhos ao céu
na doce esperança
do porvir de justiça e alento
jamais te entegue
a tristeza do momento.
Volte a sorrir
flor que desabrocha
no jardim encantado
do mais além.
É lá mãezinha que Jesus
te aguarda e o Durvalzinho também
Parabéns pelo natalício.
Muita paz,
Augusto de Lemos
(Mensagem mediúnica recebida
na Carta Consoladora
pelo médium Rogério Leite
em 28 de maio de 2009)