Cinco horas. Hora marcada com Sarabjeet Singh Bedi, Bunny, para uma entrevista em que a pauta seguia diretamente para a Índia. Muito educado, gentil, carismático e um pouco tímido, Bunny me conduziu até seu escritório. Uma sala grande e clean, decorada com esculturas em bronze e quadros que remetiam a sonhar com o país asiático mais populoso do mundo, só perdendo para a China, com mais de um bilhão de habitantes, cuja capital é Nova Delhi e tendo a “Hindi” como a língua mais falada.
Um país de contrastes, supersticioso, misterioso e belo que tem um trânsito que é uma loucura, com grande quantidade de veículos buzinando muito, como:carro de boi, charrete, elefantes, carros, trens, riksha (bicicleta) e autoriksha (bicicleta motorizada), grande sensação para os turistas de todo o mundo. Apesar de tudo isso, raramente se vê um motorista xingando ou brigando. Mesmo caminhando pelas ruas pode ser uma experiência única. Pessoas diferentes, com costumes diferentes, mas ao mesmo tempo iguais a nós, que estamos sempre aprendendo uns com os outros. Gente é sempre gente, não importa a roupa que vestem ou a língua que falam. Pessoas abençoadas pelos Deuses e privilegiadas por poder experimentar a meditação às margens do sagrado rio Ganges, ou poder descansar debaixo de uma árvore no parque onde Budda fez seu primeiro sermão. E é aí que começamos a questionar a nossa vida estressada e cheia de ansiedade onde queremos ter coisas como: carro novo, uma casa maior, apartamento na praia e outros bens , para depois passar a vida lutando para conseguir mantê-las...
Devaneios...talvez seja pelo fato de Bunny ter me corrigido e dito que o Taj Mahal não é a atração turística mais visitada na Índia, e sim o Golden Temple, um templo sikhs, que equivale ao Vaticano dos católicos, em Amritsar, um templo inteirinho de ouro!!!, um dos quadros que decora uma das paredes de seu escritório. Bem, chega de sonhar, vamos para nossa entrevista:
Jornal de Caçapava - Bunny, os indianos são receptivos e calorosos com seus turistas ou convidados, porquê?
Bunny - O indiano é profundamente arraigado ao sentimento de amor, e recepcionar bem as pessoas faz parte de nossa cultura. “Namaskar”...uma palavra de acolhimento, mágica e gentil, saúda à chegada a este país pronunciada com sinceridade, de mãos postas e cabeça inclinada.
JC - O indiano é vaidoso? vocês gostam muito de ouro (jóias), como é a vida de verdade na Índia?
B - Sim, somos vaidosos. Gostamos do ouro porque o ouro traz segurança para o futuro. A vida do indiano é dividida em quatro fases, e essa divisão se chama Ashrama: a infância, a juventude, que é absolutamente devotada aos estudos, (não existe namoro nesta fase), o tempo de se constituir família, que é pela tradição arranjada pelos pais (este hábito está caindo em desuso com os tempos modernos) e na velhice a vida é dedicada à realização espiritual. Tal modo de vida mostra a grande importância dada ao conhecimento, e um grande número de indianos, apesar do alto índice populacional do país, e da pobreza que é consequência disso, tem escolaridade e fala mais de uma língua.
JC - Qual foi a contribuição da Inglaterra, país que colonizou a Índia?
B - Foi principalmente a introdução da
língua inglesa, que permite que haja uma língua comum falada em todos os estados, cada qual com sua língua nativa. Mas, além disso, introduziram o sistema de trens, que cobre todo o país, o telégrafo e toda a modernização nas comunicações. A independência foi conquistada em 1947, após a célebre resistência pacífica liderada por Mahatma Gandhi, que deu exemplo para o mundo, ensinando que a paz é possível.
JC - É verdade que grande parte dos indianos são vegetarianos?
B - Sim. grande parte é vegetariano e os que não são, não comem carne de vaca, porque a vaca é sagrada, para nós ela é uma divindade dos Deuses, é como se fosse uma mãe, muito respeitada, ela nos dá um amor incondicional e não espera nada de volta. Isso faz com que os espaços não sejam ocupados com pasto, propiciando assim maior incentivo à agricultura. Mesmo que muitas pessoas não tenham teto, sapato e outros, a comida é fácil e barata, além da disposição de ajudar uns aos outros ser uma coisa natural para nós.
JC - A Índia é o maior produtor anual de filmes para o cinema, inclusive o filme indiano ”Quem Quer Ser Um Milionário?”, confirmou o favoritismo e venceu em 8 categorias incluindo melhor filme e direção no 81º Oscar da Academia, isso faz com que a Índia tenha orgulho de sua identidade própria. Fale um pouco mais sobre “Bollywood”.
B - A Índia moderna , como todos os outros países, absorveu a cultura ocidental, mas, isso sem perder as características culturais. Um grande exemplo é a nossa indústria cinematográfica, que é a maior do mundo. O número de filmes feitos na Índia é maior que em qualquer outro país. Ela se concentra em Bombay e a maior paixão do indiano é o cinema. Os cinemas vivem lotados, a população adora seus astros, e o estilo “Bollywood” se faz presente nas ruas, com músicas que são presentes em alto e bom som, em todos os lugares, o colorido que os indianos tanto gostam saindo dos saris, que ainda são uma constante, para as roupas ocidentalizadas, pelo menos nos grandes centros. O melhor de tudo isso é que tudo tem a cara da Índia, não se vê uma invasão cultural como ocorre em outros países, que perdem a sua identidade em nome de serem modernos.
JC - Na novela “Caminho das Índias” a palavra final é dada sempre pelos mais velhos...
B - Sim, os mais velhos são muito respeitados em nosso país. Na Índia isso ainda continua. Eles possuem experiências e podem passá-las para os mais jovens.
JC - Também na novela, quando o marido morre ele é incinerado e a esposa tem que ir junto, isso ainda é usado nesta era tão moderna?
B - Não. Desde 1857 já não se queima a viúva junto com o marido.Queima-se o corpo, ou seja, ele é cremado, e suas cinzas são jogadas no rio, ( Hindu e Sikhismo). Outras religiões não fazem mais isso, como os Mulçumanos que os enterram. Inclusive, muitas viúvas hoje, voltam a se casar novamente.
JC - Explique, por favor, rapidamente, as quatro castas que existem no país:
B - São: Brahman, ou Brâmane - casta superior, os gurus, filósofos educadores, tem obrigações com a sociedade. Kshatriya - administradores e soldados. Vaishya - comerciantes e pastores Sudras - artesãos e trabalhadores braçais, na novela, os Dalid, os intocáveis. Antigamente esse sistema de castas era seguido como lei, mas depois que Mahatma Gandhi, o grande personagem da libertação da Índia, contestou isso em nome dos direitos humanos, hoje na Índia a mobilidade social já se fez presente. Outra coisa que é absolutamente importante para entender a cultura indiana é a crença na reencarnação, que para os hinduistas, assim como para outras religiões, é um preceito básico e incontestável.Somente considerando isso é que um ocidental pode entender o sistema de castas. Na filosofia indiana a vida é um eterno retorno, que gravita em ciclos concêntricos terminando no seu centro, coisa que os iluminados atingem. Os percalços da vida não são motivos de raiva, assim como os erros não são uma questão de pecado, mas
sim uma questão de imaturidade da alma.
JC - Quais são as principais religiões da Índia?
B - Hinduismo - Budismo - Jainismo e Sikhismo, Cristianismo e a fé Baháí.
JC - Quais são os Deuses mais conhecidos e divulgados no Ocidente
B - Ganesh - Deus Hindu que abre os caminhos, é o Deus da prosperidade, filho de Shiva e Parvati. Shiva - Deus Hindu destruidor. Destrói os inimigos e energias negativas. Destrói para reconstruir com positividade. Budda - Nascido como príncipe, chamado Sidarta Gautama, largou todos bens materias e conseguiu a iluminação. Budda, significa, “O Iluminado”, ele é o mestre da religião do Budismo. Krishna - Deus Hindu do Amor. Parvati - Mãe de Ganesh e esposa de Shiva. É modesta, conservadora e benígna. E outros mais.
JC - Vale a pena conhecer a Índia?
B - Férias na Índia não são férias como as outras, é uma história de amor...Visita após visita você vai amar a Índia cada vez mais...O mistério e a beleza eterna da Índia ficam por explorar. A Índia possui tudo, os monumentos antigos e antigos palácios majestosos. Só uma visita lhe permitirá descobrir o mundo exótico da Índia com as suas civilizações antigas, as suas culturas enraizadas e vivas. Ao longo de todo o ano é oferecida uma vasta escolha de estâncias com um clima ameno para passar excelentes férias. A Índia tradicional, a Índia moderna ou uma mistura das duas. Os confortáveis hotéis de tarifas acessíveis e os hotéis palácios dos marajás estão ao seu dispor.Receber as flores frescas de jasmim de delicado perfume que lhe oferecem os vendedores de rua, será certamente uma agradável sensação. Os objetos de artesanato delicadamente esculpidos, as pratas finas incrustadas de pedras preciosas de cores brilhantes, os perfumes exóticos, os tapetes tecidos à mão, as soberbas pinturas sobre seda. Os sorrisos amigáveis e o acolhimento caloroso dos indianos onde vá mostram a plenitude que possuem, apesar das dificuldades que atravessam neste país em vias de desenvolvimento.
JC - As festas na Índia são longas...
B - Sim, as festas na Índia não terminam nunca. Os indianos celebram após festa ao longo de todo ano em todas as épocas. O esplendor e a graça das danças tipicamente indianas e a melodia da sua música são uma experiência que tem que ser sentidas por si mesmo, pois não há palavras que a descrevam. A cozinha indiana não é menos exótica. também nela há uma grande variedade de pratos. A Índia é absolutamente diferente, uma civilização de cinco mil anos, raças diferentes, línguas fascinantes, culturas e tradições, trajes exóticos é certamente o destino que lhe dará as melhores recordações...
JC - Sua família reside em que lugar da Índia?
B - Somos de Nova Delhi, mes pais e meu irmão Bawa e sua esposa Sonia e os filhos também. Na verdade toda a família. Em 1993 vim com dois amigos para o Brasil para passar o Natal e Ano-Novo. Gostei e fui ficando. Montei minha primeira loja em São Paulo em 1994, vale a pena ressaltar que Bunny trabalha com importação, exportação, roupas indianas, acessórios artesanais e decoração da Índia e de Bali a “Bedi Internacional Ltda”, em Caçapava é dono da “Sutra”. Possui também outras lojas de atacado em São Paulo e Caçapava que abastecem o Brasil inteiro.
JC - Você se casou com a Semiramis. O casamento ocorreu na Índia, a festa também durou três dias?
B - Sim, a festa do casamento foi bem tradicional, e houve três dias de festa. Minha esposa Semiramis, brasileira, teve tudo o que uma noiva indiana teria, saris bordados, tudo muito lindo. O casamento foi maravilhoso. Para nós indianos o casamento é para sempre. Hoje temos a Prableen, 4 anos, e somos uma família feliz. Para nós indianos o casamento é levado muito a sério.
JC - Bahgwan Key Liye, Meu Deus!, então é tudo verdade!!! os casamentos são como na novela “Caminho das Índias”? Ahre Baba! então conte um pouco sobre sua participação nessa novela que está fazendo com que os brasileiros tenham uma vontade imensa de conhecer a Índia.
B - Thiq - Hal, tudo bem. Glória Perez, a autora da novela está mostrando uma Índia real, essa repercussão está sendo muito boa para o nosso país. Na verdade, as roupas e a decoração usada na novela são todas das minhas lojas. A assessora de Glória sempre que precisa entra em contato. Fui convidado para a festa do lançamento da novela, eu e minha esposa Mirinha, e fomos muito bem recebidos.
JC - Acha Hom, é mesmo. Essa novela é encantadora. Ela está mostrando ao povo brasileiro uma cultura muito diferente da que estamos acostumados. É uma aula de civilização em torno da cultura mágica que é a da Índia. Aliás, adorei essa entrevista, adorei estar com vocês. Que vontade de conhecer a Índia, que vontade de ser a “Maya” e usar um daqueles saris maravilhosos!!! Que suas vidas sejam longa e felizes! Semiramis, a Mirinha do Bunny, também participou da conversa. Obrigado. |
|